Antonio Melloneto
Artista plástico- graduado pela Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Alvares Penteado - FAAP
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Durante o século XIX, era comum que as pessoas ao morrer fossem fotografadas. Esta atividade se chama Post mortem photos.
Ao contrário do século XX, marcado pela reprodutibilidade técnica da imagem, e do início do século XXI, marcado pela distribuição virtual da imagem, a fotografia, em meados do século XIX era um artigo de luxo e, nesse caso específico, funcionava como última homenagem aos falecidos.
Os álbuns dos mortos eram uma espécie de negação da morte ao mesmo tempo em que se tornavam memórias guardadas pelas famílias para relembrar dos entes queridos. O importante era fazer parecer que as pessoas estavam vivas ou dormindo em fotos de grupos de mortos e também de pessoas vivas sentadas fazendo poses com os cadáveres.
Às vezes as fotos dos bebês eram coloridas artificialmente para dar um tom de vida ao cadáver infante.
Até o século XIX a representação visual da realidade ficava por conta da pintura. Posteriormente a fotografia se encarregou desse papel documental. Atualmente, a mesma imagem fotográfica que em meados do século XIX era considerada um artigo de luxo, é facilmente acessada, apropriada e copiada virtualmente. Não se fala mais apenas nas questões da reprodutibilidade técnica (que marcaram o século XX), mas de uma cultura virtual, que não se baseia em um lugar ou espaço físico. “A partir do tratamento digital da informação, possibilitado pelo computador, não há mais a mínima diferença entre uma geração de cópia e outra, mesmo que elas estejam separadas por milhares ou milhões de gerações intermediárias. A informação visual contida numa cópia de milésima geração é exatamente a mesma contida na matriz de primeira geração, nem um pixel a mais ou a menos. Definitivamente, as imagens que circulam nos modernos meios digitais pertencem à ordem da distribuição e não mais à da reprodução” [1] .
[1] MACHADO, Arlindo. Máquina e imaginário: O desafio das poéticas tecnológicas. São Paulo: Edusp, 2001, p.19.
No presente projeto, a questão abordada é colocada em discussão durante o processo de pensamento e execução da obra. Primeiramente as imagens fotográficas dos recém-falecidos, produzidas no século XIX, são acessadas e apropriadas da internet. Posteriormente tais imagens são manipuladas manualmente e virtualmente, até gerarem uma nova imagem. Essa nova imagem original é armazenada em receptáculos negros que dialogam de forma abrangente com as imagens, ora como urnas que abrigam os espectros dos pequenos natimortos, ora como a caixa preta fotográfica referenciada metalinguisticamente e ainda como uma citação da ruptura da moldura pela arte pós-moderna. Transpor a imagem, originalmente confeccionada como uma fotografia artesanal do século XIX, para o meio de manipulação virtual do século XXI tem como intenção criar um reposicionamento, uma readequação de uma sensibilização espacial e temporal contemporânea, de tensionamento e enfrentamento com o entorno, de flexibilização de campos e de limites.
Antonio Melloneto